O que se esconde atrás da máscara usada nos contatos sociais ? – Sérgio Telles

SÉRGIO TELLES

Hoje,17.03.12, eu li no jornal O Estado de São Paulo a coluna de Sérgio Telles, gostei e recomendo a leitura do seguinte trecho: 

“Uma da três cenas paulistanas apresentada na coluna”

Cena 3

Dia desses, perto de meu consultório, presenciei uma batida policial. Os homens da lei estavam revistando um vendedor de zona azul, um rapazote que trabalha por ali com o pai. Como ninguém intercedia por ele e o pai não estava presente, dirigi-me a um dos policiais. Identifiquei-me como médico que trabalhava nas redondezas e que conhecia a rapaz e o pai dele. Disse aos policiais que o rapaz era gente boa. Enquanto eu falava, o rapaz dizia pra mim, “tudo bem, dotô, pode ir, é só uma batida, pode ir, dotô”.

Quando terminei de falar, o policial se voltou pra mim e disse – e o senhor sabia que esse rapaz que o senhor diz ser gente boa é um grandessíssimo maconheiro e já foi preso várias vezes por furto?

Claro que eu não sabia, como também ignorava se o policial dizia aquilo para justificar sua indesculpável truculência. De qualquer forma, constrangido, fiquei sem saber o que fazer ou dizer. O moleque também estava passado. “Tá tudo certo, dotô, pode deixar”, disse-me ele.

E eu o deixei. Enfiei minha viola no saco e fui embora, pensando nas inesperadas descobertas que ocorrem quando se rompe a distância habitual que mantemos com nossos semelhantes e aparece o que se esconde atrás da máscara usada nos contatos sociais. Temos então de lidar com esse Outro que ali surge, diferente daquilo que imaginávamos.

Essa experiência nos faz reconhecer as limitações de nosso conhecimento, a possibilidade de equívocos e erros de julgamento, ao mesmo tempo em que mostra a necessidade de abertura e tolerância frente ao desconhecido e o inesperado.

Quanto ao rapaz da batida policial, algum tempo depois voltei a encontrá-lo na rua vendendo seus talões de zona azul e nos cumprimentamos como se nada tivesse acontecido. Estávamos de novo com nossas máscaras.

Nas circunstâncias, era o que havia a fazer.

*   *   *

Para ler as outras duas cenas paulistanas clicar no endereço abaixo.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,semaforos-farmacias-mascaras-ou-tres-cenas-paulistanas-,849691,0.htm

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São Paulo - Brasil
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